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A Vida Não Tem Botão de Acelerar
Por Administrador
Publicado em 21/10/2026 18:07
Regional
A Vida Não Tem Botão de Acelerar
Outro dia, olhando o campo no fim da tarde, me veio uma lembrança de quando eu era piazito. Naquele tempo, a gente não tinha muita pressa. O dia começava cedo e parecia saber exatamente a hora de terminar.
Havia o serviço, o cavalo, o mate, a conversa na varanda e aquele silêncio da campanha que nunca foi vazio. Sempre havia alguma coisa acontecendo nele: um vento mudando, um pássaro anunciando a tarde, o gado se movimentando ao longe ou simplesmente o sol se escondendo atrás do horizonte.
A gente esperava.
Esperava a chuva, a primavera, a hora de voltar para casa, uma visita, uma carta. E talvez tenha sido justamente esperando que aprendemos algumas coisas que hoje parecem esquecidas.
Hoje, quase tudo pode ser imediato. Uma mensagem atravessa distâncias em segundos. Uma notícia chega antes mesmo de entendermos a anterior. Podemos conversar com alguém do outro lado do mundo enquanto estamos sentados à mesa.
Nunca tivemos tanta velocidade.
Mas talvez nunca tenhamos tido tanta dificuldade para parar.
Estamos sempre com a sensação de que falta alguma coisa para fazer, alguma mensagem para responder, alguma notícia para acompanhar, algum compromisso para cumprir. Até quando descansamos, parece que precisamos estar ocupados.
E então me pergunto: será que estamos ganhando tempo ou apenas aprendendo a gastá-lo mais depressa?
Não sou contra o progresso. Seria até uma contradição pensar assim. O mundo mudou, e muita coisa melhorou. A tecnologia aproxima, facilita, ensina e resolve problemas que antigamente pareciam impossíveis.
Mas existe uma coisa que nenhuma tecnologia conseguiu inventar: tempo vivido de verdade.
Não existe aplicativo para recuperar uma conversa que não tivemos. Não existe máquina capaz de devolver uma infância que passou. Não há fotografia que substitua completamente a presença de alguém que amamos.
Talvez por isso algumas lembranças antigas permaneçam tão vivas.
A voz de um pai chamando de longe. O cheiro da terra depois da chuva. O movimento da encilha. Um mate compartilhado. Uma conversa sem hora para acabar.
Coisas simples.
E talvez sejam justamente as coisas simples que mais estejam nos fazendo falta.
Não precisamos voltar ao passado. O passado tem seu lugar, e o presente também. O que talvez precisemos é trazer conosco algumas coisas que não deveriam ter ficado para trás: a paciência, a conversa, o silêncio, a atenção ao outro e a capacidade de simplesmente estar onde estamos.
Porque há uma diferença enorme entre passar pelas horas e viver as horas.
O relógio continua fazendo o seu trabalho, indiferente às nossas correrias.
Nós é que precisamos decidir o que fazer com o tempo que ele nos entrega.
A vida, afinal, não tem botão de acelerar.
E talvez a grande sabedoria seja descobrir que algumas das melhores coisas da existência acontecem justamente quando diminuímos o passo.
 
João Luis de Almeida 
19.10.2026 - Lua Crescente
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