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Rodada
Rodada
Por contato
Publicado em 31/01/2026 10:32
O Campo

Rodada

Era fim de tarde mansa, dessas que o domingo vai se despedindo devagar, e o campo parecia respirar largo. O céu se mexia aos poucos, com nuvens se ajuntando como quem arma conversa, enquanto o vento quente do norte passava alisando a relva. Lá adiante, umas garças riscavam o ar em bando, brancas feito presságio, indo não sei pra onde, mas sabendo o caminho.
Eu seguia montado num tubiano, duro de boca e ligeiro, desses que não aceitam desaforo, mas entendem o serviço. No fundo do potreiro, a cavalhada andava se espalhando, e eu tocava com jeito, sem pressa, mangueando manso. Tudo parecia sob controle, como se o dia tivesse combinado comigo.
Mas cavalo é bicho de momento, e campo não avisa. Uma tordilha se assustou à toa, talvez com o estalo do vento ou sombra atravessada, e saiu desembestada, puxando atrás de si toda a tropilha, num rebojo só de crinas e disparada. O sossego virou alvoroço num piscar de olhos.
Na tentativa de sujeitar, dei de rédeas, para atacar a matungada. Foi ali que o pingo tropicou feio, e o mundo deu uma volta inteira. Senti o chão subir e o corpo perder rumo, como se o tempo tivesse resolvido me testar.
Soltei um pé do estribo no susto, joguei o corpo pro lado, mas a espora traiçoeira ficou presa. Fui sendo arrastado, sem mando nem escolha, com o coração batendo mais alto que o casco do cavalo. O campo passava correndo por mim, e cada palmo parecia o último.
Mais adiante, um capão fechado de eucalipto se levantava feito parede. Naquele segundo comprido, pensei na vida inteira, no rancho, no mate quente, nas madrugadas frias e em tudo que ainda não tinha sido vivido. Afrouxei o corpo, entreguei pro destino, porque às vezes é só isso que resta ao vivente.
Foi quando a bota cedeu, largando do pé como quem solta um nó velho. Caí livre, rolando no chão, sentindo o baque e o silêncio depois do susto. Fiquei ali um instante, respirando fundo, com o peito ardendo e a alma voltando pro lugar. A vida vinha de encontro a mim outra vez, crua e inteira, lembrando que no campo, assim como na fronteira, cada rodada ensina a respeitar o chão que se pisa e o cavalo que se monta.
 

...No fim de tarde serena,
campo largo a respirar,
garças cortando o silêncio,
tudo parecia acertar.

Mas no disparar da tropilha
o chão quis me ensinar:
no campo, a vida é ligeira,
e manda quem sabe cair e levantar...

 

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