Lidando com as ovelhas
O sol mal rompe a linha do horizonte e já vai dourando o campo, enquanto a peonada principia a lida, Entre prosa e alguns floreios, seguem enforquilhados de olho atento, mangueando o rebanho no campo do meio, onde o pasto ainda guarda o orvalho da madrugada.
Um mais ao largo vai costeando o aramado. Os ovelheiros seguem ligeiros, cortando o campo baixo. De quando em quando, o olhar se estica pra longe, campeando algum roceiro ou apartado, desses que se largam do lote sem pedir licença.
De um canhadão vem um assovio curto e certeiro, som conhecido que não precisa de grito. É aviso e comando ao mesmo tempo. O rebanho entende, se junta aos trancos, e vai clareando a coxilha num movimento só, como se o campo tivesse aprendido a se mover em conjunto. O branco das ovelhas se espalha pelo verde, pintando o chão feito nuvem baixa.
A lida aperta quando na mangueira. Vozes se levantam na medida certa, misturadas aos assovios e aos latidos dos ovelheiros. A cordeirada berra alto, e o som corre campo adentro, ecoando num cenário que só quem vive a campanha conhece. Ali, homem, bicho e chão se entendem no costume antigo, sem pressa, mas sem erro.
Pouco a pouco, o rebanho vai se embretando, se ajeitando em lotes, levantando poeira fina que o vento espalha. O serviço começa a tomar forma, e cada peão sabe o tempo exato de agir. Não é força, é cadência. Não é gritaria, é jeito.
Um dos mais antigos segue firme dosando. As ovelhas vão se alinhando, encordoando no brete como se obedecessem a um compasso invisível. O trabalho rende porque o campo respeita quem conhece seu ritmo.
No final, se apartam alguns capões sendo marcados pra o sustento da estância. São soltos no potreiro do cercado, onde aguardam o destino sem alarde. O sol já vai alto, a lida se aquieta, e fica no ar aquele cansaço bom, de serviço bem feito. Mais um dia na campanha, onde cada assovio conta história e cada passo deixa rastro no chão da fronteira.
...Sol clareando a coxilha,
Peão e sua experiência
O rebanho vem ao tranco,
No compasso da querência
Um “assoviozito” comprido,
O ovelheiro se larga sem reclamo,
O rebanho vai se acomodando
No costume pampeano...