Campanha
A campanha se estende como um lençol antigo, alvejado de vento e tempo, perdendo-se lá adiante onde o horizonte parece juntar as mãos com o infinito. É nesse vasto silêncio que a gente aprende a domar mais do que cavalos: domamos as ânsias, esses repontes da alma que vivem tropeando dentro do peito.
No rancho de madeira onde as crianças crescem escutando o assobio do minuano pelas frestas, o mate clareia as madrugadas como um velho farol campeiro. A água quente sorve a lonjura, e cada amargo parece contar uma história que a memória teima em guardar.
Pelas sangas e canhadas, corre o murmúrio dos rios, como se o próprio pago falasse baixo, sussurrando conselhos de quem já viu muita tropa passar. As cercas de pedra, firmes e teimosas, seguem dividindo querências e unindo lembranças; mangueirões e aramados se abrem para o gado manso que pasta nas invernadas, dono de uma paz antiga que o campo ainda sabe oferecer.
Campanha terra que cria gente como cria capão de mato e campo em flor. A raiz que nos sustenta nasce na fronteira, onde o céu se amadrinha ao solo e a história se espalha como poeira levantada por tropilha ligeira. E a vida, campeadora de destinos, vai nos fazendo fiadores da própria querência.
A cada manhã, a peonada se ajeita na sela, emparelhando o serviço como quem emparelha amizade: firme, sem alarde, mas de coração inteiro. A lida é rude, mas o ofício dá sentido aos passos do cavalo e aos dias que se espraiam sobre varzedos e banhados.
A velha campanha, retrato xucro que acolhe as gerações como mãe de poncho aberto. Aqui, seguimos tranqueando a vida, troteando as dobras dos corredores e as distâncias, essa geografia de fundões que só entende quem carrega poeira no sombreiro e horizonte dentro dos olhos.
E quando o sol se despede e o domingo se ajeita no galpão do tempo, a campanha revive suas carreiras, seus pingos ligeiros, sua gauchada alegre que recorre pulperias como quem visita velhos companheiros. A cordeona floreia saudades, o trago alonga conversas, e o pago, de tão verdadeiro, parece respirar junto com a gente.
Assim é a campanha memória viva, chão que fala, alma que se esparrama pelo vento. E nós, filhos dessa fronteira, seguimos sendo aquilo que ela moldou: parte do campo, parte do tempo, parte dessa eternidade simples que nasce onde o Pampa encosta o ouvido no coração do mundo.
...Na campanha o peito aprende
A se domar no silêncio,
Mate amargo clareia a alma
E o vento ensina paciência.
Entre sanga, cerca e invernada
Vai se criando a querência,
Sou poeira, sou campo e tempo
Fiador dessa existência...