Cercado
Lá no fundo do potreiro da estância, meio escondido entre o mato e o silêncio das coxilhas, existia um pedacinho de chão que parecia pequeno no tamanho, mas grande nas lembranças. Era ali que o tempo tinha passado arando devagar, rebolcando não só a terra, mas também as memórias de quem cresceu correndo descalço entre sulcos e cercas.
O lugar era singelo, com arame bem esticado, desses de espinho que ensinam respeito até pros mais atrevidos. No fundo tinha um capão de mato fazendo sombra e uma aguada mansa onde a água descansava clara, espelhando o céu da campanha. Era um “cercadito” guardado como quem guarda um tesouro simples, mas cheio de vida.
A terra dali era buena, dessas que responde ao carinho de quem trabalha. Bem curtida pelo estrume da mangueira e virada pela junta de bois, ela se abria em sulcos largos, esperando a semente cair da mão calejada do campeiro. Cada cova era uma esperança plantada, cada broto que nascia era promessa de fartura.
E o campo pequeno logo se enchia de cores e cheiros. As ramas se espalhavam pelo chão como serpente verde, escondendo frutos gordos que amadureciam no sol. Espigas cresciam firmes, feijões se entrelaçavam faceiros e as ramas doces se arrastavam pela terra fofa, como se quisessem abraçar aquele chão que lhes dava vida.
Quando chegava o tempo da colheita, o movimento tomava conta do pátio. Sacas, cestos e a velha gaiota iam e vinham até o paiol e o galpão, onde a safra era guardada com cuidado. Parte ficava pra sustento da casa, parte seguia estrada afora, garantindo que o ano passasse sem aperto. Assim a estância seguia seu rumo, sustentada pelo trabalho quieto daquele pedaço de terra.
Mas mais que o plantio, aquele canto era um pedaço da própria existência. Um mundo pequeno, cercado de arame e lembrança, onde a vida brotava simples e verdadeira. Quem cresceu por ali sabe que não era só um cercado de campo — era um paraíso humilde, desses que a gente leva guardado no peito mesmo depois que o tempo passa troteando longe pelas estradas da vida.
No fundo quieto do potreiro
onde o tempo foi mais lento,
um cercado guarda histórias
plantadas no próprio vento.
Arame esticado e firme
segurando mais que chão,
segura a vida simples
que mora no coração.
Sulco aberto pela lida,
semente caída na mão,
cada broto que desponta
é memória em germinação.