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Caseriando Recuerdos
Publicado em 30/06/2026 17:25
O Campo

Caseriando Recuerdos

Caseriar recuerdos é abrir as porteiras da memória quando a tarde vai morrendo atrás das coxilhas. É sentar na varanda, com o porongo na mão e o olhar perdido no horizonte, deixando os pensamentos tropearem pelos caminhos já percorridos.

Então chegam os ecos dos bailes de galpão iluminados a lampião, o som das gaitas chorando milongas antigas e as gargalhadas dos companheiros reunidos ao redor do fogo. Voltam as tropeadas compridas, os amanheceres frios de geada branca e os abraços de quem ficou guardado apenas na querência da lembrança.

Os recuerdos são como brasas escondidas sob a cinza. Parecem apagados pelo tempo, mas basta um sopro da saudade para reacenderem o calor de tudo aquilo que ajudou a formar quem somos. E enquanto houver memória, ninguém parte de verdade; segue troteando manso pelos campos do coração.

 

Abrir as porteiras quando a tarde cai

Atrás das coxilhas, num rumo perdido,

É ver o olhar que ao longe já vai,

Tropeando caminhos que o tempo tem lido.

Na ponta dos dedos, o porongo aquecido,

Sentado na ponta de uma velha varanda,

Deixando o passado voltar acolhido,

Pelas sesmarias onde a alma ainda anda.

 

Eis que ecoam as gaitas nos velhos galpões,

Bailes antigos sob a luz de lampião,

Onde as milongas tocavam os corações

E o riso dos parceiros brotava do chão.

Voltam as geadas da fria estação,

As longas tropeadas de poeira e de vento,

E o abraço guardado, feito oração,

Na querência sagrada do meu pensamento.

 

 

Estes recuerdos são brasas no borralho,

Sob as cinzas do tempo que teima em passar,

Mas basta o sopro que trago no estalho

Da velha saudade para o fogo acordar.

Enquanto a memória puder recordar,

Ninguém se despede, ninguém parte em vão:

Quem amamos segue a nos habitar,

Troteando bem manso nos campos do coração

João Luís de Almeida

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