Caseriando Recuerdos
Caseriar recuerdos é abrir as porteiras da memória quando a tarde vai morrendo atrás das coxilhas. É sentar na varanda, com o porongo na mão e o olhar perdido no horizonte, deixando os pensamentos tropearem pelos caminhos já percorridos.
Então chegam os ecos dos bailes de galpão iluminados a lampião, o som das gaitas chorando milongas antigas e as gargalhadas dos companheiros reunidos ao redor do fogo. Voltam as tropeadas compridas, os amanheceres frios de geada branca e os abraços de quem ficou guardado apenas na querência da lembrança.
Os recuerdos são como brasas escondidas sob a cinza. Parecem apagados pelo tempo, mas basta um sopro da saudade para reacenderem o calor de tudo aquilo que ajudou a formar quem somos. E enquanto houver memória, ninguém parte de verdade; segue troteando manso pelos campos do coração.
Abrir as porteiras quando a tarde cai
Atrás das coxilhas, num rumo perdido,
É ver o olhar que ao longe já vai,
Tropeando caminhos que o tempo tem lido.
Na ponta dos dedos, o porongo aquecido,
Sentado na ponta de uma velha varanda,
Deixando o passado voltar acolhido,
Pelas sesmarias onde a alma ainda anda.
Eis que ecoam as gaitas nos velhos galpões,
Bailes antigos sob a luz de lampião,
Onde as milongas tocavam os corações
E o riso dos parceiros brotava do chão.
Voltam as geadas da fria estação,
As longas tropeadas de poeira e de vento,
E o abraço guardado, feito oração,
Na querência sagrada do meu pensamento.
Estes recuerdos são brasas no borralho,
Sob as cinzas do tempo que teima em passar,
Mas basta o sopro que trago no estalho
Da velha saudade para o fogo acordar.
Enquanto a memória puder recordar,
Ninguém se despede, ninguém parte em vão:
Quem amamos segue a nos habitar,
Troteando bem manso nos campos do coração
João Luís de Almeida