Estanciando a Solidão
A solidão, às vezes, chega de mansinho, igual cerração rasteira cobrindo as canhadas antes do amanhecer. Vai se espalhando pelos pensamentos sem fazer alarde, e o peão se vê solito com seus recuerdos, escutando apenas o assobio do vento passando pelas macegas.
Mas quem conhece a campanha sabe que a solidão não é sempre inimiga. Ela é como uma estância antiga: ampla, silenciosa e cheia de cantos escondidos. Nela, a gente vai recolhendo as saudades desgarradas, apartando uma por uma como quem trabalha o gado num mangueirão de pedra.
Entre um mate amargo e outro, a alma vai se acomodando. O silêncio deixa de ser vazio e passa a ser abrigo. E assim, estanciando a solidão, o coração encontra pouso para os sentimentos que andavam xucros pelos campos da existência.
...Na querência do meu peito
o silêncio fez morada
domou saudade sem jeito
como tropa aquerenciada
Entre um mate e um clarão
o pensamento se aquieta
estanciando a solidão
a esperança fica quieta...