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Quando o Rio Grande se Levantou
Publicado em 14/09/2026 16:10
O Campo

Quando o Rio Grande se Levantou

Cá pras bandas do Sul,

quando o campo era mais largo

e o horizonte não tinha porteira,

um silêncio diferente

se deitou sobre a campanha...

 

Não era silêncio de paz,

nem de sesta de peão cansado.

Era o silêncio comprido

de quem junta coragem

antes de soltar o grito.

 

O Rio Grande andava sentindo

o peso de imposto e injustiça,

o couro apertado demais

num povo acostumado

a viver de rédea solta.

 

E foi então que o vento mudou...

Dezoito de setembro de trinta e cinco,

a história bateu casco

nas estradas do pampa.

 

Homens de bombacha,

poncho, lenço e coragem,

montaram seus cavalos

e foram pra guerra.

 

Não levavam luxo.

Levavam o que tinham:

 

um cavalo ligeiro,

uma adaga na cintura,

um pala sobre os ombros

e um coração

que não sabia se acovardar.

 

Bento levantou a voz,

e a campanha respondeu.

 

Farroupilha!

E o grito correu pelos campos

mais ligeiro que o minuano.

 

Correu por coxilhas,

atravessou sangas,

bateu nas porteiras,

acordou ranchos

e fez estremecer o chão.

 

Era o homem do campo

defendendo seu chão,

sua honra,

seu direito

de ser ouvido.

 

Vieram batalhas,

vieram mortes,

vieram noites compridas

sem saber se o dia seguinte

traria volta ou despedida.

 

Mas quem conhece a guerra

sabe:

não existe vitória

sem cicatriz.

E o Rio Grande sangrou.

 

Sangrou nas barrancas,

nos campos,

nas estradas poeirentas,

no peito de mãe

que esperava o filho

voltar da peleia.

 

E enquanto uns lutavam

com espada e lança,

outros sustentavam a vida

na lida do campo.

 

Porque revolução também se faz

com o braço que planta,

com a mão que ordenha,

com o cavalo encilhado

antes do sol nascer.

 

E foi assim...

 

Dez anos de luta

não cabem num livro.

Cabem na memória.

 

Cabem no silêncio

de uma velha estância.

 

Cabem no olhar

de quem contempla uma coxilha

e ainda escuta, ao longe,

o tropel daqueles homens.

 

Em mil oitocentos e quarenta e cinco,

a paz chegou.

Mas paz não apaga guerra.

E guerra não apaga memória.

A Revolução Farroupilha ficou...

 

Ficou no lenço vermelho,

na bombacha,

no pala,

no mate cevado junto ao fogo,

no cavalo que corta o campo

com o vento batendo na crina.

 

Ficou na alma

desse povo campeiro.

Porque o tempo passa...

 

A tropa muda de estrada,

o cavalo envelhece,

a marca se apaga do couro...

 

Mas aquilo que um povo viveu

não morre.

Fica guardado

feito brasa de fogo de chão:

parece apagado...

 

mas basta um sopro

pra voltar a arder.

 

E quando o minuano assobia

por entre as macegas,

quando a noite se estende

sobre o pampa,

 

parece que ainda se escuta

lá no fundo da campanha...

o tropel dos farrapos.

 

E uma voz antiga

gritando pro vento:

 

“Este chão tem dono,

tem história

e tem memória!”

 

E enquanto houver campo,

cavalo,

mate e liberdade...

 

o Rio Grande

não esquecerá.

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